Dep. Ricardo Izar falou a Revista Época

“Tenho vergonha mesmo” O deputado Ricardo Izar Jr. é o presidente do Conselho de Ética da Câmara – um cargo que ninguém quer. E não gosta de dizer que é político.”

Numa tarde recente, a sala 49 do Anexo II da Câmara dos Deputados era uma festa. Oito servidores cantavam “Parabéns” para um colega. O bolo era coberto por glacê branco e recheado com o que parecia um creme de ameixa. Enquanto lambiam as pontas dos dedos, eles discutiam como chegar e, principalmente, como sair da Câmara no dia seguinte, a quarta-feira em que era esperado mais um grande protesto nas ruas – e em que o Brasil enfrentaria o Uruguai na Copa das Confederações. “Vou bater hoje meu ponto de amanhã, não quero nem saber. Vão fechar a Esplanada, sabia?”, dizia um deles. Os comensais do bolo – e fraudadores do relógio de ponto -eram os assessores que atendem o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara. Na sala ao lado, o deputado Ricardo Izar Jr., chefe da turma e presidente do Conselho há três meses, procurava o que fazer. Em vão.

“A gente chega aqui cheio de sonho, mas logo bate a realidade”, diz Izar Jr., suspirando como quem constata a própria irrelevância. É o que costuma acontecer com deputados no primeiro mandato, como é o caso dele. Izar Jr. afirma que nem queria ser político. É economista e, até 2010, era dono de uma grande corretora de seguros, a Brasil Insurance. Ele carrega na carteira de identidade o nome do pai, Ricardo Izar, titular de nada menos que 11 mandatos na Câmara dos Deputados. Morto em 2008, Ricardo, o pai, apadrinhava as Apaes de São Paulo. Numa homenagem que a unidade de Jaú fazia ao velho Izar, um aluno perguntou ao Izar Jr. quem cuidaria deles a partir dali. Ele se apiedou. Depois de consultar a mãe, Marisa, decidiu se candidatar. Eleito com 88 mil votos pelo PV (ele já se mudou para o PSD de Gilberto Kassab), Izar Jr. se empolgou e quis seguir o exato caminho do pai: ser presidente do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Conseguiu o que queria. Na Câmara, ninguém mais liga para o Conselho de Ética.

Aos 44 anos, Izar Jr. gastou R$ 1 milhão do próprio bolso na campanha para conquistar o cargo. Claramente, percebe agora, foi mau negócio. “A maioria absoluta de quem domina a Câmara está viciada em coisas que acham normais. A forma como se segura um projeto, senta-se em cima de uma relatoria, a pressão dos lobbies…”, diz Izar Jr. Ele diz que gostaria de ter sido o paladino da primavera brasileira. Achou que teria processos e processos empilhando em sua mesa. Não tem. Nas raras vezes em que um deputado comete o disparate de acusar outro, a representação para na Mesa da Câmara ou na Corregedoria. Apenas quando a acusação vem de um partido, o processo vai direto para o Conselho. Das três representações que caíram lá neste ano, uma já foi arquivada. A maioria das sessões do Conselho nem sequer tem quórum. Sempre estão vazias. Na semana passada, não houve sessão. Mesmo com as denúncias de que o presidente da Câmara, Henrique Alves, usara um jatinho da FAB para ir à final da Copa das Confederações.

O Conselho de Ética foi criado em 2001. Até 2006, quando casos como o mensalão exigiam trabalho dobrado, o Conselho julgou apenas 25 processos -sem contar o escândalo dos sanguessugas, quando o colegiado não conseguiu cassar nenhum dos 69 deputados envolvidos. No caso do mensalão, o Conselho aprovou 12 pedidos de cassação. O plenário cassou três deputados. A sucessão de absolvições desmoralizou o Conselho, e o número de processos diminui a cada ano. De 2007 para cá, 19 provocações, ou pedidos de abertura de processo, estão paradas na Mesa da Câmara, incluindo os casos notórios contra o deputado Marco Feliciano. “Não poderia, mas, às vezes, peço para alguém nos provocar. Infelizmente, diversos casos deram entrada na Mesa e ainda não chegaram aqui. Tenho pedido casos que estão na Corregedoria, mas eles não mandam”, diz Izar Jr. E por que demora tanto, deputado? “Demora porque… demora porque… eu não sei por que demora.” Izar Jr. também se queixa das panelinhas que emperram a atividade da Câmara -e, por extensão, da Comissão de Ética. “É falta de vontade política, mas não da Casa, e sim daqueles que mandam na Casa. Da pequena panelinha que está aí há muito tempo e nunca vai sair”, afirma.

Num ímpeto de novato, Izar Jr. tentou trabalhar num dia em que os colegas não estavam muito no clima. Na quarta-feira, dia 19, dia de jogo entre Brasil e México, ele conseguiu reunir 11 deputados às 15h30, meia hora antes do pontapé inicial. Dez minutos depois, todos foram embora. Não votaram nada. Frustrado, Izar Jr. levou sua pauta ao plenário da Câmara: um requerimento para a criação de uma comissão de deputados que fosse a Santa Cruz do Arari, no Pará, investigar a denúncia de que havia uma matança de cachorros promovida pelo prefeito da cidade. Izar Jr. foi alvo de chacota. “Independentemente da gravidade do assunto, creio que nos expomos ao ridículo (se aprovarmos o requerimento)”, afirmou Ricardo Berzoini (PT-SP).“Era um dia perdido, em que não votaríamos nada. Por que não votar isso? Era o que a rua pedia, que a gente mostrasse serviço”, diz Izar Jr.

A bandeira da defesa de animais foi empunhada por Izar Jr. graças à filha Isabela, de 9 anos. Ela perguntou ao pai o que um deputado fazia. Ele disse que fazia leis para melhorar a vida das pessoas. “E quem faz leis para cuidar dos animais?” perguntou a menina. Izar Jr. derreteu. Embora ele tenha atendido ao pedido da filha, a garota não se orgulha de seu trabalho. Da mesma forma que Izar Jr. só foi admirar o trabalho de seu pai depois de mais velho. Ele se lembra bem de quando Ricardo Izar presidiu o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, entre 2005 e 2008, período em que o conselho, criado em 2001, foi mais crítico e ativo. “Ele sofreu muita pressão, chantagens, ameaças. A gente andava com segurança na época do mensalão. Foi difícil, foi isso que o matou”, diz Izar Jr. Por toda a sua infância, ele evitou contar aos amiguinhos que seu pai era político. Ainda hoje, esconde sua carreira de homem público. “Virou uma generalização falar que aqui só tem gente ruim. Tem gente boa também. Se ficar falando isso, só sobram os ruins, porque eles não têm vergonha. O bom tem. Não falo que sou deputado por aí. Quando vou ao dentista, falo que sou economista. Tenho vergonha mesmo. Vou falar que sou político e ficar ouvindo?” Em tempos de manifestações, imagine o que ele ouviria se saísse dizendo por aí que, na Câmara dos Deputados, é o responsável pela área de… ética.
Teatro na Política. Um governo que anuncia muito, mas entrega pouco. Em 41 cerimônias, ao longo de seu mandato, Dilma lançou 17 planos, 15 programas e 6pactos,. Todos com letras maiúsculas, mas resultados minúsculos

Na tarde da última segunda-feira, o burburinho era grande em frente ao Palácio do Planalto. Filas formavam-se na portaria. Vans e mais vans estacionavam, apinhadas de gente. Delas, saltavam médicos, enfermeiros e funcionários de hospitais, que estavam na capital para o Congresso de Secretarias Municipais de Saúde. Certamente por coincidência, a presidente Dilma Rousseff marcara a pomposa cerimônia de lançamento do Pacto Nacional pela Saúde para o mesmo dia do tal congresso. Alexandre Padilha, ministro da Saúde e pré-candidato do PT ao governo de São Paulo (não se sabe se nesta ordem), acertou a agenda do Palácio com a do Congresso, de modo a assegurar plateia suficiente para o espetáculo. Deu certo: a casa lotou. Às 15 horas, uma pequena multidão ocupava o salão nobre do Palácio do Planalto. Estava lá para aplaudir. Estava lá como claque do governo de Dilma Rousseff -um governo feito em cima do palco, em que cada vez mais se anuncia e cada vez menos se faz. Clap, clap, clap.

Num momento difícil como esse, em que aplausos viram vaias, ministros batem cabeça, derrotas acumulam-se no Congresso, e a popularidade cai no chão das ruas, sobraria a um governo apenas trabalhar. Mas esse é o governo Dilma -e o espetáculo não pode parar. Naquela segunda-feira, ele durou mais de duas longas horas. Dilma sentou-se no meio do palco, sorridente e tranquila, como quem já sabia o que a esperava: uma fanfarra de adulação. A seu lado, ministros – muitos ministros. Dois telões ladeavam um grande cartaz com o logotipo do programa (um estetoscópio em forma de Brasil) e fotos de médicos felizes. Primeiro falou o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Num sinal de como está difícil compreender a trama em Brasília, ele se tornou o principal articulador do governo. Elogiou a “presidenta” e falou sobre as medidas que seu ministério tomaria para melhorar a formação de médicos. Esqueceu-se de mencionar um pormenor: a presidente Dilma declarou, em agosto de 2011, em mais uma cerimônia, que pediria aos ministérios da Saúde e da Educação a criação de um Plano Nacional de Educação Médica. Era mais ou menos aquilo que ele estava anunciando com tanto estrépito – e com dois anos de atraso.

O tal Pacto da Saúde prevê a ampliação de cursos de medicina e a contratação de médicos que se disponham a trabalhar no interior do país. Se não houver médicos suficientes, o governo afirma que convocará médicos estrangeiros. Os estudantes de medicina, tanto de faculdades públicas quanto particulares, serão obrigados a trabalhar dois anos em hospitais públicos -obrigação que, por abusiva, certamente será questionada na Justiça. Mas quem presta atenção a esse tipo de detalhe em Brasília? O negócio é elogiar a “presidenta”. Do ministro da Saúde, Alexandre Padilha: “Senhora presidenta, quero agradecer muito a coragem, a disposição, a dedicação da senhora de nos colocar para construir alternativas inovadoras para resolver esse problema”. Do governador da Bahia, Jaques Wagner: “Presidenta Dilma, não me surpreende, e creio que não surpreende mais o povo brasileiro, a sua coragem e determinação para enfrentar problemas centrais da nossa gente”. Enternecida, Dilma encerrou o espetáculo, aos brados: “Brasileiros e brasileiras podem ter certeza: este governo e esta presidenta, eles não fogem à luta. E essa é uma luta, uma boa luta!” Clap, clap, clap.

Desde o começo do governo, houve, ao menos, 41 cerimônias desse tipo. Dilma lançou 17 Planos, 15 Programas e 6 Pactos – houve festa até para entrega de ônibus escolares e compra de retroescavadeiras. Tudo com iniciais maiúsculas, como determinam os magos da propaganda oficial – mas resultados minúsculos, como demonstra a pífia execução do orçamento do governo. Nesses espetáculos, Dilma anunciou investimentos de pelo menos R$ 1,1 trilhão até o fim de seu governo, dos quais R$ 151 bilhões viriam da iniciativa privada. Se já tivesse cumprido metade do que prometeu e investido incríveis 25% do PIB do país, o Brasil já seria a Dinamarca. As ruas dizem que não é – e os números também. Mas esta é a beleza de governar por propaganda: espera-se que o lucro político, resultado de caros anúncios e insistentes discursos, venha no momento da promessa. Que a plateia bata palmas no começo do espetáculo. O problema, como Dilma descobriu com os protestos de junho, é quando a plateia, revoltada com a qualidade do que viu, vai às ruas pedir de volta o dinheiro do ingresso.

Num governo pautado pela ilusão, nada é mais difícil do que encontrar a realidade. Na máquina pública, ela está sempre nas complicadas planilhas do orçamento, onde se descobre quanto, de fato, o governo gasta na construção de hospitais e escolas. “Quando lança os planos, o governo não informa de onde tirará os recursos para cumprir os investimentos anunciados. É um doping”, afirma Gil Castelo Branco, da ONG Contas Abertas, que acompanha o orçamento de Brasília há muito tempo. É fácil confirmar a análise de Castelo Branco. ÉPOCA perguntou ao Ministério das Cidades em que categoria de despesas – em que parte da planilha do governo – estão os R$ 50 bilhões de investimentos em “mobilidade urbana” – leia-se transporte público – anunciados por Dilma há três semanas. Resposta: “Isso ainda está sendo definido pelo governo federal”.

Apesar das dificuldades impostas pelo governo na leitura dos números, é possível concluir que Brasília gasta muito onde deveria cortar – na manutenção da máquina – e pouco onde deveria gastar muito – nos investimentos, fundamentais para atender bem a população e catapultar o crescimento econômico. A pedido de ÉPOCA, a assessoria do DEM no Senado fez um levantamento, nas contas do governo, sobre os investimentos do governo Dilma. Do orçamento de 2011, apenas 55% foram gastos. Do orçamento de 2012, apenas 31%. Em 2013, nem 5% dos investimentos autorizados para este ano foram gastos – e faltam menos de seis meses para o ano acabar. A ONG Contas Abertas estima que R$ 160 bilhões deixaram de ser investidos pelo governo do PT, desde 2003, nas áreas mais criticadas durante os protestos: saúde, educação, segurança e transportes. Foram gastos apenas 52% dos recursos previstos. A área mais afetada pela falta de investimentos foi o transporte. Apenas R$ 53 bilhões, de um total de R$ 133 bilhões. Em seguida, aparece saúde: R$ 34 bilhões deixaram de ser investidos, o suficiente para construir 15 mil prontos-socorros em cidades que têm entre 200 mil e 300 mil habitantes. Um levantamento semelhante, do PPS, também nas contas do governo, confirma que Dilma manteve a baixa média de investimentos do governo Lula.

A saúde, que mereceu tamanho espalhafato na cerimônia de segunda-feira, é claramente a área mais negligenciada. No ano passado, o governo investiu apenas 10% do que prometera na construção de prontos-socorros. E neste ano? Nem um centavo. Outro programa que se arrasta prevê a construção de 6 mil creches. Em 2012, o governo anunciou que investiria R$ 2,4 bilhões. Deste total, menos de R$ 1 bilhão foi gasto. Os exemplos são tristes e abundantes. O governo prometeu gastar R$ 131 milhões em programas de prevenção ao consumo de crack e de tratamento de viciados. Até agora, não gastou um real. Para propaganda, porém, não falta dinheiro. Desde o começo da gestão Dilma, o governo gastou R$ 382 milhões em publicidade institucional. Clap, clap, clap.

Revista Época 15/07/2013

Matéria completa em:
http://www.asmetro.org.br/portal/21-clipping/1460-revista-epoca-noticias-do-planalto-teatro-na-polit
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