Ética na Política

119/10/2011 – Artigo de Ricardo Izar Jr sobre a ética e as lições aprendidas com o pai, o ex-Deputado Federal Ricardo Izar.

O Bem e o Mal existem… O maior dos Males é aquele provocado pelo homem na sua condição de animal político, quando circunstancialmente exerce o poder político sobre uma nação. Os efeitos de suas decisões, de suas propostas ou de seus projetos, quando voltados para o Mal, se estendem à sociedade por inteiro, a milhões de pessoas o mal por atacado, levando o Povo ao sofrimento, à miséria e até ao genocídio, como a História não se cansa de registrar.

Este é um dos ensinamentos que recebi do meu pai.

Este é o fundamento da ética defendida e proposta pelo Deputado Ricardo Izar que tem em sua essência, Immanuel Kant, Rousseau, Robespierre e outros pensadores que moldaram o seu caráter e o seu conceito sobre a Ética e sobre a postura de um Político no Brasil.

Meu pai se foi… Que esteja sendo consolado, na sua morada agora eterna, e premiado com as maiores das bem-aventuranças aquelas reservadas apenas aos probos e justos.
Ficou a Ética na Política, ficou o seu compromisso com o Bem e, para mim e muitos que nele confiaram, ficou a imagem de um bom homem e um pai maravilhoso.
Ele sempre dizia: “Um nome limpo é a melhor herança e o maior tesouro que podemos deixar aos nossos filhos”.

Meu pai dedicou sua vida à Política. Em 1962, eleito presidente do Centro Acadêmico 22 de agosto, da Faculdade Paulista de Direito da PUC, concorreu com dois grupos tradicionais da sociedade paulistana. “Este garoto do Tatuapé não pode ganhar” comentavam as pessoas. Foi o primeiro passo.

Vereador, logo em seguida foi novamente eleito deputado estadual, tendo sido considerado pelo Grupo de Estudos Sociais e Políticos GESP como um dos mais atuantes na Assembléia Legislativa. Em 1986, empossando-se para exercer o seu primeiro mandato de Deputado Federal, inicia com grande júbilo sua carreira como um ativo participante da Assembléia Nacional Constituinte, ao lado de pessoas ilustres como Jarbas Passarinho, Afonso Arinos, Ulisses Guimarães… Ricardo Izar se destacou como deputado-constituinte com maior número de emendas incorporadas ao texto constitucional, 147 no total. Sempre comentava, nas legislaturas que se seguiram, e para as quais foi sucessivamente reconduzido, que as renovações da composição da Câmara dos Deputados comprometiam a qualidade e competência a cada nova eleição. Culminou sua carreira política como presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, por dois mandatos consecutivos.

Na maior crise política da nossa história, conduziu os trabalhos de forma imparcial, justa e acima de tudo transparente.

Quarenta anos de vida pública, e nenhuma mancha em seu nome. O deputado Ricardo Izar se tornou conhecido, no País inteiro, pelo seu engajamento e ação eficaz no campo da Ética na política. Era e ainda é um verdadeiro símbolo. Quem não tem na lembrança o seu semblante sereno, preocupado, porém, nos vários episódios de descaminhos recentes de dezenas de seus colegas? Presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar personificou o papel de um magistrado que julgava os seus iguais os deputados federais. Tantos e tantos anos de trabalho estafante e contínuo, as pressões político-partidárias, a tensão, os conflitos íntimos, o inevitável estresse, a angústia, o desencanto, as ameaças, tudo isso se somou para ameaçar a sua saúde, acabando por lhe ceifar a vida. Meu pai morreu empunhando a bandeira da ética. Sacrificou a sua vida pela Ética. Morreu pela Ética.

Constantemente, Ricardo Izar proferia palestras para alunos, estudiosos e profissionais. O tema: Ética. O objeto: O que é a Ética.

De todas as éticas, a Ética na política é a mais indispensável e urgente para o Brasil. Os cidadãos brasileiros, enojados e indignados com os milhares e milhares de agentes da atividade política que vêm pilhando, impunemente, o erário público, querem mudanças. Trata-se, sem dúvida, de um fenômeno generalizado, envolvendo a todos os entes federados a União, os estados, os municípios, na administração direta e indireta, com suas estatais, sociedades de economia mista, autarquias. O butim se estende aos três poderes executivo, legislativo e judiciário uma verdadeira orgia institucionalizada, levando-nos à límpida conclusão de que o objetivo subliminar da governança e do exercício da atividade política no Brasil é a prática do Mal. Uma espécie de “cosa nostra” à brasileira, estribada, porém, na Constituição Federal e nas instituições. Estima-se que a corrupção no Brasil desvie, a cada ano que passa, recursos públicos da ordem de 20% do PIB brasileiro. 400 bilhões de reais!

Enquanto poucos se beneficiam com recursos desviados que deveriam acudir ao povo, acabam por condenar ao sofrimento e à morte milhões de cidadãos mais vulneráveis, através da fome, da falta de medicamentos, de assistência médica e judiciária, da falta de moradia, de segurança nas ruas, nas estradas… Meu pai costumava dizer, com ênfase e revolta, que político que pilha os recursos de sobrevivência do povo é muito mais que um homicida é um genocida.

Com a morte de políticos como Ricardo Izar e Jefferson Peres, resulta-se tombada a bandeira da ética na política. Alguém haverá de se abaixar humildemente e, com respeito e deferência, empunhar a sua haste. Levantá-la com orgulho. Desfraldá-la com vigor. Sacudi-la aos quatro ventos, protegendo-a, velando por ela, fazendo dela o símbolo da moralidade política. Lutar por ela. Morrer por ela, se preciso for. Como o fez meu pai.

Nós, os seus filhos, por havermos tido o privilégio de um convívio mais íntimo com Ricardo Izar, temos os nossos espíritos impregnados com os seus ideais. Recebemos de herança, na educação e no exemplo que nosso pai nos legou, marcas profundas, no caminho do Bem. Fazemos aqui, publicamente, uma profissão de fé, um compromisso inarredável de dar continuidade à sua luta pela construção de um Brasil mais digno e justo. Através da defesa frenética e intransigente da ética na política e nas nossas instituições.

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